domingo, 12 de fevereiro de 2012

Carta para o Futuro Idealizado.

Escrevo-lhe, futuro, para que em algum momento me encontres e transforme-se em presente. É fato, porém, que não consigo imaginar-te todo mal, assim como não imagino-te perfeito. Afinal, és meu futuro, e de perfeita, jamais tive. Em verdade, imperfeição encaixaria perfeitamente como meu segundo nome - observe a ironia das palavras -, se não soasse tão patético e óbvio conceder a alguém tal sobrenome. Escrevo-lhe na inocente tentativa de despertar tua bondade para dar-me sinais. O passado é tedioso, sombrio e nada quero dele. Mas tu, futuro, me cativa como nada mais nessa vida. Aproveito a deixa e também destino esta carta a meu eu futuro. Que, por favor, torne-se alguém melhor do que esta boba de coração mole que vos escreve.
Desde pequena, desejava ser poeta. Observar o mundo de forma ímpar, com ousadia o suficiente para desenhar com palavras todos os meus anseios e faces. Lia em meus cadernos escolares vez ou outra poema sobre amor, e sonhava histórias de menina boba, onde um rapazote - mais conhecido em meu vocabulário por “meu amor” - me dava uma rosa. Então lhe pedirei, com todo o carinho, que não mates esta doce criatura que viveu em minha infância. Não acredites em príncipes encantados, pois contos de fadas são monótonos demais para nós, futura eu. Como bem sabes, gostamos de temporal. Encontre quem, em mãos dadas, faça-te sentir arrepio semelhante aos dos beijos de cinema. Lembre-se que se doar não é sinônimo de se doer, e que te gastar não é sinal de que precisas bater em retirada. Se pensares em amor, recorda-te aquele moço. Não é preciso citar nomes para que saibas, creio que meu futuro ainda terá sua marca, mesmo pequenina. Deseje-lhe o bem de sempre nessa vida, pois eu, teu passado, tenho mais nitidez do presente que vivo do que terás quando leres esta carta. Procure não lembrar-se a tal ponto que te faça procurar por todas as listas telefônicas até encontrar seu número, mas só para que não se engane enquanto grita feito tola aos quatro ventos que todo teu passado foi triste.
Teus amigos você saberá quem são. Sempre tivemos sexto sentido apurado para vermos de longe quem merece nosso apego e quem merece nosso rosto virado. Há muito conheci uma menina furacão, toda aos avessos comigo, ao mesmo tempo em que me trazia a razão. Jamais distancie-a de ti, futuro, pois ela salvou boa parte de teu passado. Também tem aquela festeira que nos abraçou forte numa noite fria e limpou nossas lágrimas enquanto fingia entender nossas dores só para nos sentirmos bem. Se perderes ela de vista, se arrependerá irrevogavelmente. Pois em todas as nossas andanças, jamais encontrará quem deixe o mundo de lado numa sexta à noite só para recolher teus cacos - a não ser ele. Ele, já falaste sobre ele, mas necessito repetir. Cuide bem de nossa memória com aquele que, sozinha, chamávamos de anjo. Muitos passarão por ti, futuro, mas nenhum será como o anjo.
Futuro, peço-te encarecidamente que não tropece nos erros que já cometemos, que não recorde-se feridas cicatrizadas. Faça com que as noites se sentindo um pedacinho de ninguém sem um ombro para se apoiar sejam esquecidas e substituídas por noites com um abraço quente. Preencha os buracos repletos de ausência com todas as coisas boas que vierem - seja um sorriso, seja uma viagem para Roma - , mas jamais deixe buracos abertos. Eles, quando não são fechados com rapidez, transformam-se em crateras. Permaneça sendo a garotinha boba que chora assistindo filmes clichês antigos, mas não permita que ninguém entre em sua vida para fazer-lhe chorar. Futuro, se não puderes ser tudo que desejo, peço-te apenas uma coisa: Seja bom.

Nenhum comentário:

Postar um comentário