Uma estante abarrotada de histórias, e no interior de cada uma delas, pequenos fragmentos, imagens e trechos, de um passado tão recente que nunca passa. - O que é o passado, senão, quando inserido num corpo anteriormente amado, algo que se foge do controle das mãos e do pensamento? E quando amamos, talvez, não exista passado que nos deixe de revirar as entranhas. Talvez essa história de nostalgia signifique algo verdadeiramente eterno. - Eu passava os dedos entre as margens das páginas amareladas e firmes, com um prazer tão grande quanto minha saudade. Não entrava muita luz no recinto, e ao cair do crepúsculo meu único desejo era morrer de tristeza, escondida entre as memórias de altas estantes e extensas prateleiras. Talvez porque aquele céu rosa-alaranjado fosse bonito demais para ser admirado por alguém solitário. Ele veio sorrateiro e incovenientemente casual, então, enquanto eu tratava com meus botões do meu lento e natural renascimento das cinzas.
— Está escrito em seus olhos.
Um sorriso maroto que puxava uma cadeira acolchoada a cor de vinho, para acomodar-se à o que me parecia uma longa e tortuosa prosa. Nada naquele sorriso me inspirava prazer. O medo da tentação me arrepiava os pêlos da nuca.
— Seja lá o que for, sempre esteve. Dê a deixa de teu falar com algo menos óbvio.
— E quem foi que te ensinou à cuspir fogo pelas ventas? São esses livros? T e enfiei na fantasia dessa biblioteca escura, e tu me cria uma dentro de tua alma.
Pretensioso. Me olhava num tom de desafio que me trincava os ossos.
— Tu não sabes de mim, guri. Não mais.
— Ah, mineira, menina… minha. Shhhh…. Antes que me atire pedras. Como andas? Com as pernas, pois bem. E o coração? A gente fechava os olhos e dava as mãos, lá pras quatro e meia. E esperava passar. Acho que tu contava os calos dos meus dedos e apertava bem as pálpebras, só pra não ver nem sentir o sol caindo. E eu nem ligava…
À essa altura já caminhava entre os móveis como um gato, presunçoso, metido.
— Tu nem ligava. Nunca.
— Mas… Tá chovendo?
Parou num baque, apoiado nos calcanhares, como se prendesse a respiração àquela resposta.
— Daquelas garoinhas chatas, só. Depois de um tempo vira parte do contexto.
— E quem foi que abriu o guarda-chuva?
Teu semblante brilhava em cólera, explodia nervosismo daqueles olhos tão pretos. Às vezes a gente deve deixar de lágrimas. Elas voltam por nossa garganta feito uma cachoeira de tristeza. A garoa. Há de passar? Vomitei as palavras. E quem limpasse o assoalho que tratasse de carregá-las.
— Às vezes ele é tão bom, que dá medo de amar. Porque quando eu amo, aperto tanto contra meu peito (pra ver se entra) que quebra. Sangra por dentro e destruo por fora. E ele fica tão bonito livre. Ele combina com terças-feiras de Sol, sabe? É como se tivesse nascido para ser minha fênix, e à cada vez que eu me tornasse cinzas da minha própria ansiedade e angústia, ele me renascesse. É intrigante, mesmo que seja a verdade em pessoa. É que às vezes ele me cuida e foge como se fosse anjo da guarda de meio mundo. Eu vivo ainda nessa mania de ser excepcional, mágica, fada, encantadora. Então ele me abraça sem nem ver, e tenho medo que ele corra. Corra para nunca mais me chamar de ”meu bem”. Tô me contentando sem falar de amor. Porque a saudade faz dele ainda mais bonito em meus sonhos. Porque a gente se fala pequeno, apertado, e eu sei que ele pode expandir do tamanho do universo. A aura dele é azul, e talvez eu não esteja preparada para viver sem isso novamente. Às vezes ele parece a bossa nova que eu semre procurei. Mas talvez ele me venha com um solo de guitarra, sem rosa nem espatódea. Ele me encanta, ele me envolve, sabia? Ele é a coisa mais bonita do mundo. Mas sai dessa. Não é pra mim, quem dera. Eu deixo ele quietinho, olho de longe, se não eu estrago, quebro, desmonto. Às vezes (guarda esse segredo?), quando ele dorme, eu toco o rosto dele bem leve, com as costas das mãos. E enquanto ele pensa que foi um sonho bom e banal, eu finjo que é minha pele de poetisa roçando naquela barba rala e rock n’ roll. E se eu uso bem dos meus desejos, eu posso ouvir ele sussurrar que, sim, tá tudo bem morena… Um dia desses vou contar pra ele, sabe. Pra ele ver esse retrato que talvez ninguém nunca pintou igual. Aí meu coração vai chorar por estar sozinho, mas feliz pela brasa quentinha que ele acende quando sorri. Eu vou sorrir chorando, porque ele não é do meu mundo. Vou sentir a inveja conversar revoltada com meu amor turista: ele é a exposição.
Me fitava tão calado, intrigado, numa´fúria e indignação retida que faltava perder o ar.
— E acabou?
— Pra ti? Faz tempo. Pra mim é só o começo.
