
Travestida de amor. Que cilada essa do destino, não é verdade, meu bem?! E eu, tola, praticamente me joguei naquele buraco, me deixei envolver pela rede, travestida de teus braços… E aqui, nessa queda sem fundo de um poço mais ainda, espero te encontrar encolhido contra a parede, ou pronto para me amparar alguns metros à diante. Ou talvez eu nem espere mais nada, e só fico aqui te sonhando para não deixar a mente vazia… Casa do diabo, dizem por aí. E nesse frio sabor de solidão, a gente não pode se deixar levar por desejos, por saudades. O caso é que é gostoso falar de ti e de meus receios. É gostoso a gente subir na nuvenzinha do verso e depois do último ponto final, cair bruscamente, abrir os olhos, sentir o impacto de um pesadelo que a gente vive acordado. Procurei o médico, o porteiro, teu síndico que tanto me gosta, meu vizinho que mal me conhece. Ninguém sabe do tal amor que a gente era, que eu ainda tenho. Sussurro teu nome, entre meus dentes cerrados, tentando quebrar o clichê que tua graça deixa no ar: não dá, meu bem, não dá. As pessoas se desconcertam, mexem no cabelo, olham para um lado e para o outro, me dão os seus pêsames. Aqui jaz. Uma porção de coisas, aqui jaz. E todo mundo faz questão de demonstrar uma falsa compaixão. É pena. É alívio de saber que está tudo em seu devido lugar quando batem a porta às minhas costas. É só no meu apartamento que não para de chover? Goteiras, umidades. O céu, solidário, está chorando junto comigo. Será que ninguém nunca foi atingido por uma tempestade? Os raios não param de cair no mesmo lugar. E se eu te contasse os segredos mais expostos do mundo? E te contasse histórias do amor mais infeliz da face da terra? Te convido para minha tormenta. O que falta aqui é teu calor. Tu vai me servir de sofá, de lareira, de colo, de amor.
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