”Te entendo não. E tento decifrar-te da mesma maneira que tento entender as inúmeras ordens do Universo, minhas manias, meus jeitos, meus encantos. Sou de perder noites e noites nessa busca insaciável e inútil por explicações. Tentei esconder as perguntas dentro do criado mudo, e procurei as respostas. O mais simplórias que sejam, não foram. Não apareceram. Engraçado como a gente ajuda a empurrar o carro dos outros e os vê seguindo viagem, felizes. Engraçado como tenho a resposta na ponta da língua para tudo que não diz respeito à mim, à nós. Tua falta é tão maior, e tu partir foi de avião. Alto, longe, veloz… Longe do alcance das minhas mãos e de minhas asas fracas, vulneráveis demais como aquela debaixo das penas, frágil, imprevisível. Eu havia decidido que era melhor não voar, desde que tivesse a certeza de que não precisaria de nada que me acolhesse lá embaixo: não teria. Resolvi seguir de pé no chão, por mais que o asfalto quente me queimasse nos dias de sol, e o piso molhado e gélido me deixasse escorregadia, do mesmo jeito que tu escorregou por entre os nós dos meus dedos. Ora andando, ora correndo. Parando para descansar, para pedir forças, ou pelo menos para retomar o rumo dos meus pensamentos. Andando, andando sim. Porque meu carro, quem empurra?
E dirigir sozinha é perigoso. Aqui só chove e minha cabeça ainda está lá junto das nuvens, carregadas e cinzentas. A solidão é traiçoeira e, viajando junto dela, a danada permite que vários males peçam carona. E vivo junto com ela, como melhores amigas e irmãs que somos, porque não há outro jeito. Antes só do que mal acompanhada. Tua companhia? Boa, sincera, tudo o que eu tinha. Engraçado como eu evito falar de amor com saudade, e mais hilário ainda como minhas tentativas são em vão. Como, depois da solidão, tu se tornou a coisa mais difícil de se livrar desse mundo. Se quero mesmo me livrar de ti, não sei. Talvez eu ainda cogite a hipótese de que tu pouse e me chame para voar. Que eu possa descansar minhas asas, meus pés, e minha cabeça em teu peito. Tu e a solidão, um anula o outro. A primeira regra de sobrevivência de uma moça como eu é colocar a amizade antes do amor. Concorde comigo que existem exceções em relação à amor-amigo, à amigas da onça como essa maldita solidão. Exceções em relações tão complexas como esse nosso triângulo amoroso. Como posso eu, ter dois amores, e nenhum ao mesmo tempo? As coisas vêm acontecendo comigo como quando se lê uma revista com alguém: tu, com receio de mandar o dono da revista esperar, deixa ir virando a página… E eu, mesmo involuntariamente, talvez por passividade, vou ficar pra trás… E quando me dou por mim, não li, e terei de ler sozinha. Sozinha. Eu e solidão. Nada de você, de avião… A moral de hoje é essa: enquanto meu amor voa, eu leio revista.

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