”Poderiam dizer teu nome…” Afinal tua graça me abria muitas portas, te levando comigo para o interior delas. O labirinto fica assustador, mesmo solado por um campo de flores, quando se está sozinho, meu bem. O vento pode derrubar um corpo sem rumo como o meu. Me pergunto se aqueles que comigo partilham de versos tristes, também possuem almas carregadas das palavras mais impactantes, escritas, e acima de tudo, sentidas, ou se são apenas palavras… Penso mais uma vez: sempre são apenas palavras. Mais uma estrofe, mais um gole; um verso bonito que logo será esquecido passeia por minha mente, por alguns (vários) instantes… As coisas boas da vida são realmente breves; nosso abraço tem de ser o mais demorado, nossa gargalhada a mais alta, o olhar mais penetrante; podem ser os últimos. Engraçado, essa filosofia de vida tão clichê, porém tão certeira.
O que nessa vida não é clichê?
Eu vomito um arco-íris de lembranças todos os dias, diretamente pro céu; o vazio logo é preenchido pela imensidão do azul, ”Posso pegar o quanto quiser, nunca faltará”, eu penso, enquanto deixo o azul navegar pelos novos mares do meu corpo. Acho que preciso do Sol para viver. É. Acho que preciso de acordar bem cedo, em horário tal que a Lua ainda esteja ali, disputando com aquela enorme esfera de fogo o espaço do infinito. Será que não vêem que há espaço para todos os astros? Será que assim como eu, que sou estrela presa em um só céu, de um só azul-marinho, não percebem que podem viajar pela aquarela das galáxias? Aliás… (…) Sabemos. Sabemos que não é fácil como dizem. Não é simples como pegar uma mochila, alguns sanduíches e dizer adeus para a mãe. Sabem que passar um dia fora de casa, sem notícias, é bem mais que um ato de rebeldia, e que a vida não voltaria ao normal se voltássemos para casa com a Cruz Vermelha nos procurando pela cidade. A vida é bem mais que essas utopias adolescentes, que um American Pie. Uma vez que os pés tateiam o chão, não podem mais viver sem um pouco da terra fime, diariamente. E com o tempo a gente vê que é possível manter a cabeça nas nuvens e o pé junto das raízes.
Então, hoje te justifico meu receio, mesmo que não lhe deva essas intimidades há tempos. Se fosse só um passo, se um amor apenas fosse capaz de destruir barras de ferro… E se, meu bem, se eu pudesse sobrevoar teus arredores além de meus sonhos! Entenda que nosso caso é difícil demais; que se fôssemos investigação criminal, estaríamos arquivados. E mesmo que minhas palavras estejam confusas, e que nem meus sejam estes versos, inteiramente repassados e revisados por mim, pensados e carimbados, diferentes dos rascunhos perfumados e intensos que já lhe ofereci, ainda há um elo. De papel ou de vidro. Mas vidro não é areia? Vidro não vem e vai, com as ondas do mar, vidro não fica quente, esquenta nossos pés, acendem nossos passos, acolhem nossas caminhadas? Vidro não pode ser jogado ao vento, ciscando os olhos, cegando-nos dos sóis daqui de dentro e do céu? Então que seja papel. Que papel é madeira, é árvore. Está fincado pelas raízes, e protegido pelas leis da natureza. E que fé, essa minha, na natureza. Que fé nas coisas que a ciência não defime em teoremas, que não se encaixam nas equações.
Igual amor. Natureza é igual amor. Papel é igual amor.
A gente não explica, não vê como acontece, e nem procura saber. A gente sente, depois de pronto, e acha que está construindo algo. Mas já estava tudo premeditado, pela natueza, pelo destino, ou por um toque de mãos, uma troca de olhares… E o coração, bem, o coração só avisa a gente que o novo chegou. O coração só pergunta baixinho:
- Ó, moça, vai deixar entrar, tem certeza? Porque amor é furacão de fogo, é tempestade seca. E não tem como voltar atrás. Entra por debaixo da porta, espia pelo buraco da fechadura, é carregado pelo vento. E olha, se me permite. É até bom. É bom pra quem não sabe amar. Só ama. Pra quem não sabe dizer, mas lê até o que não está escrito.
- Deixa entrar, deixa entrar. E se o papel rasgas, a gente cola.

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